O presente da fada


Ao chegar em casa, encontrou sobre a mesa da sala uma caixinha de presente com um laço verde. Não era seu aniversário, nem nenhuma outra data significativa. Abriu ressabiado a caixa e sorriu ao ver seu conteúdo: uma bomba de chocolate, seu doce favorito.

Coçou a testa pensativo. Quem haveria lhe deixado tal mimo? Seria a Fada dos Dentes de Leite? Talvez. Como toda criança saudável, perdera muitos dentes na infância, todos ofertados à Fada. Mas fadas não existem – pensou. Aquele papo de fada era uma enrolação que seu pai, um homem doente e sempre de pijama, inventara para lhe extrair os dentes moles. Como não tinha mais o que fazer, o velho homem se divertia servindo de boticário da família e dos vizinhos, mas seu passa-tempo predileto era amarrar uma linha de costura nos dentes-de-leite e arranca-los numa só puxada. A conversa da fada era só um argumento para convencer suas vítimas. A elas prometia que para cada dente extraído, a fada traria um doce.

Seria aquela bomba de chocolate a recompensa pela qual esperou toda vida? Aqui cabe uma pequena explicação. Apesar de prometer um doce para cada dente, seu pai sempre esquecia da promessa e, assim, a fada nunca entregou a prenda. Por baixo da pele de ateu, de cético, de cientista, havia um coração de menino que tinha certeza de que o doce era obra da Fada dos Dentes de Leite. Olhou novamente para o interior da caixa, mirou diretamente na bomba de chocolate e encheu os pulmões de ar. Enquanto os esvaziava num longo suspiro, se deixou levar por uma reflexão, quase um devaneio. Lembrou que na infância havia trocado de endereço muitas vezes, de escola chegou a perder as contas. A Fada poderia ter se perdido com aquele troca-troca todo. Na adolescência morou fora do país. Vai ver as Fadas dos Dentes de Leite são como DVDs, têm área, assim, um prêmio ganho no sul não poderia ser entregue no norte.

Corou-se ao se dar conta de seus pensamentos, sentiu-se pueril ao lembrar do pai e da infância. Nesse momento, se deu conta que somente alguém poderia ter deixado aquele doce ali. Alguém que o ama, alguém que é de carne e osso e, que apesar de parecer uma fada, não tem nada a ver com seres mágicos. Mas por que deixou aquele doce de presente? Por que naquela caixinha tão cerimoniosa e sem cartão? Foi então que nosso herói descobriu que o amor não tem razão e que aquele gesto de carinho não precisa de um porquê. Tudo aquilo se bastava em si.

Sentou em sua poltrona azul, pôs a caixinha no colo, levou o doce à boca e sentiu o açucarado sabor de ser amado sem razão.

No inferno com Casoy II


Sensibilizada com a situação dos prisioneiros de Abu Ghraib e Guantánamo, acusados de terrorismo pelos Estados Unidos, a ONU resolveu pressionar o governo Bush para acabar com o uso de cães ferozes, surras, choques elétricos e outras práticas de tortura nos interrogatórios dos presos. O congresso americano acatando as recomendações da ONU editou uma emenda ao Ato Patriótico suspendendo as citadas práticas e substituindo-as pelo uso da exposição direta a um televisor com o telejornal apresentado por Boris Casoy como forma de extrair confissões dos supostos terroristas. Fontes ligadas a entidades de defesa dos direitos humanos afirmam que os prisioneiros imploram pelo retorno dos cães ferozes.

            Terrorismo é um moralismo que nunca se cala!!!

No inferno com Casoy I


Fontes confiáveis dizem que foi encontrado um novo manuscrito da peça “Entre quatro paredes” de Sartre. Nesta versão inédita, o pensador francês alterou sua descrição do inferno. Este seria um quarto pequeno, arrumado, com um mordomo educado, porém seco e um televisor transmitindo incessantemente um telejornal apresentado por Boris Casoy. Quem leu diz que é de arrepiar!! Cruzes!!!

            O inferno é um moralismo que nunca se cala!!!

Entre quatro paredes


Deitado em uma cama menor do que seu tamanho exige, alguém luta para pegar no sono. Vira para um lado e para o outro. Os olhos fundos se apertam quando encaram a luz vermelha do rádio-relógio. São três e quinze da manhã e alguém está prestes a descobrir que dormir não é para quem quer, mas para quem pode.

Ao verificar pela nona vez as horas, descobre que tem pouco mais de trinta minutos para dormir. A idéia de condensar uma noite inteira de sono em meia hora é perturbadora.

Na escuridão deformada pelo astigmatismo, uma mão vasculha a superfície de uma mesinha de cabeceira. Entre um copo com água e um rolo de papel higiênico encontra o descongestionante nasal. Duas gotas em cada narina são suficientes para deixar o ar entrar livremente, mas por imperícia dos dedos uma quantidade maior é despejada na narina esquerda. O líquido salgado escorre pela garganta piorando o gosto amargo de uma boca que não dorme há dias.

Na insônia os sentidos ganham proporções inimagináveis. O bater do próprio coração faz um barulho irritante, apenas comparável à respiração de quem dorme ao lado.

São quatro da manhã. A vizinha de cima levantou, calçou chinelos e, provavelmente, foi mijar. Os olhos novamente se voltam para o rádio-relógio. A sentença é cruel: quinze minutos para levantar. Checar as horas durante a noite só piorou a agonia. E como se fora uma velha carpideira, deixou seus olhos marejarem e soltou um gemido. Passar noites em claro é como ir ao velório de si mesmo, todo dia.

Por que será tão difícil dormir? O sono depende do relaxamento e relaxar depende da capacidade de abrir mão da consciência. Por que a consciência, essa espécie de sentinela do eu, tem de estar sempre alerta?

A luz da cabeceira se acende e revela a capa de um livro de biblioteca: Entre Quatro Paredes. Nessa peça, Sartre descreve o inferno como um quarto pequeno com uma luz que nunca se apaga.

Uma luz que nunca se apaga. Uma luz nunca se apaga. Uma luz que nunca se apaga – ecoa três vezes em sua mente enquanto cambaleando avança em direção ao banheiro. Tateia a parede ladrilhada e acha o interruptor. Já se sabe que o que está por vir será desagradável. Quando o botão vira de um lado para o outro, trilhões de agulhas de luz branca são lançadas em sua direção e penetram fundo nos olhos, mesmo com as pálpebras cerradas. Dentro do armário-espelho está a escova de dente, a pasta sabor menta extra forte e o barbeador que repousa sobre o frasco quase vazio de remédio para dormir. O frasco vazio de um remédio que só faz barbeadores descansarem parece mais uma ampulheta sem areia.

 Para quem não dorme o tempo não passa. Todo dia é o mesmo dia que todos os outros dias. É como um texto sem pontos, vírgulas ou parágrafos. Um eterno contínuo. Uma luz que não se apaga. Um inferno. Mas o que há de tão perigoso no sono? Por que será que o Estado de Vigília decretou estado de sítio na existência dos insones? Em nome de que ordem se proíbe a festa onírica do inconsciente?

Após tomar um copo de leite frio e vestir o agasalho, desce correndo as escadas do prédio. O trem sai em vinte minutos e até a estação há um longo caminho. Na mochila, leva seus instrumentos de trabalho, o livro de Sartre, duas barrinhas de cereais, cápsulas de guaraná em pó com ginseng e a certeza de que dormir é permitir-se ser todos aqueles que se é, e que o inferno é uma consciência que nunca se apaga.

De volta


Nossa!!! Faz muito tempo que não escrevo nada aqui. Tinha até teia de arranha no campo destinado ao login. Mas sabe como é. Depois de desvendar um dos maiores segredos da terra achei melhor dar uma sumida.

            Para ser sincero, andei vagando durante esse tempo tentando esquecer o meu hiato, mas ele é meu e me acompanha. As idéias para novos textos vinham e eu fazia questão de esquecê-las, de dizer “passa depois”. E as idéias, orgulhosas que são, não perdoavam o meu desdém e não voltavam mais. Foi assim com uma idéia genial que tive sobre-alguma-coisa-que-não-me-lembro-o-quê. A idéia era sensacional, mas precisava ser lapidada, pensada. Muito trabalho. Passa depois!

Nietzsche compara o pensar (que é sentir também) com a digestão. Acho que tenho comido uma rabada por dia. Tenho sentido uma moleeeeeza. Sou um sujeito do tipo preguiçoso hiperativo, faço de tudo para não fazer nada e vinha tendo relativo sucesso nessa empreitada. Vez por outra acessava o blog só para ver se alguém tinha deixado algum comentário (confessei meu narcisismo!) e acabava relendo textos antigos. Fui sendo seduzido pelas minhas próprias palavras (ihhhh tá ficando sério. Alguém pode chamar minha analista?). Ao passo que lia, minha cabeça reproduzia fielmente, como se fora um tocador de cd, o refrão de “Minha estranha loucura”, da Marrom Alcione: “vai sentir falta de mim/ sentir falta de mim/ vai tentar se esconder coração vai doer/ sentir falta de mim”. Essas palavras soavam como uma sentença. E como senti falta. Senti falta de me deixar ser afetado pelo mundo, senti falta deste blog e das idéias que o geram. Não podia mais continuar me escondendo do meu hiato. E como um namorado que pede para voltar, fiz juras de amor eterno, debulhei explicações estapafúrdias para minha ausência e prometi nunca mais incorrer no mesmo erro. Depois de um falso relutar, fui aceito de volta. E para selar as pazes, desabotoei os dedos, abri um parágrafo e com letra maiúscula meti entre linhas. Assssspas, gememos juntos ao postar este texto de retorno.

 

 

ps: nem sempre é fácil cuidar do que se ama, mas esta é uma tarefa irrevogável.

Nota de agradecimento

Aos rebeldes Klaus, Babi, Samuca, Katu e André os meus agradecimentos mais sinceros. Eles  também já sabem de tudo.

Nota sobre a dominação do mundo n° 3

Como uma única empresa pode simplesmente ser dona de todas as coisas? Como pode ser tão multi, inter, transetorial, onipresente. Somente uma mente onisapiente seria capaz de criar uma realidade dominada por margarina, sabão em pó, desodorante e e-mail. Senhoras e senhores, a mente por trás da dominação do mundo, o comandante dessa nave que nos abduz a todos tem um nome: Dr. Drauzio Varela.

Claro!! Somente o homem que tudo sabe seria capaz de cria uma empresa que tudo produz. Pasmem. Mas por trás da imagem de bom velhinho, de médico de presidiários e consultor de saúde para populações economicamente excluídas do processo de globalização e capitalismo avançado está o dono do mundo, o chefe do Bush, do Bill Gates, da Paris Hilton e de tantos outros.

Será que ninguém percebe que todo domingo à noite o Dr. Drauzio nos transmite mensagens subliminares de consumo dos produtos Unilever? Crianças com baixo peso, desnutrição, problemas de aprendizagem na escola são temas utilizados para dizer: comam maizena! Maizena engorda e faz crescer. Quando se fala em higiene o que imediatamente pensamos? Lavar as mãos, escovar os dentes, nos proteger dos germes, fungos e bactérias que sempre existiram, mas que só depois do Dr. Drauzio é que nos demos conta. E quem produz dez entre dez sabonetes? Unilever!!!

Matrix existe!

Nota sobre a dominação do mundo n° 2

Já notou que quase tudo ou mesmo tudo no domínio da informática passa por empresas como google, yahoo e microsoft? Você tem orkut, my space ou flickr? Seu e-mail é Gmail, yahoo mail ou hotmail?

Agora adivinhe de que grande conglomerado empresarial essas marcas fazem parte? Acertou que disse Unilever!! Ela domina o mundo!!

Matrix  existe!!!

Nota sobre a dominação do mundo n° 1

Num jantar delicioso e careiro que tive recentemente com amigos queridos num restaurante indiano, tive um insight sobre a dominação do mundo. Vai ver que foi o clima transcendental ou o curry, mas o que importa é que “meninos, eu vi!”.

Por acaso você já se deu conta que quase tudo que consumimos vem de uma única empresa? Produtos de marcas freqüentadoras de nossos lares como Ades, Arisco, Ala, Axe, Becel, Brilhante, Cif, Clear, Clouse up, Confort, Dove, Fofo, Hellmann’s, Kibon, Knorr, Lipton Ice Tea, Lux, Maizena, Minerva, Omo, Rexona, Seda, Surf, Vasenol e Vinólia são na verdade uma única marca, a Unilever! Isso significa que se você quiser trocar de fornecedor de sabão em pó, sabonete ou caldo de carne, a dificuldade será imensa.

A Unilever é a dona do mundo. Eles estão por toda parte. Ninguém toma café, banho ou lava roupa sem eles.

Depois que tive esse insight, fico constrangido toda vez que vou ao supermercado. Olho para as gôndolas no setor de perfumaria e vejo aquele monte de produtos diferentes e penso: - eles querem me enganar. Estão fingindo que estão competindo entre si, mas é tudo mentira. Esses sabonetes são todos primos, irmãos, cúmplices, comparsas.

Gente, matrix existe e se chama Unilever.

Dentes

Meus dentes não cabem na boca. Estão sensíveis, não doloridos, sensíveis. E é de sensibilidade que quero falar. Acabei de chegar do show do Moska. Paguei quinze reais. Sou estudante. E quem não é? Sentei perto do palco, mas não muito. O suficiente para ver com a pele, sentir a música poderosa do inseto falante.

Quando o primeiro acorde foi executado, comecei a sentir os dentes. Estanho. Afinal ninguém sente uma parte específica do corpo quando está saudável. Na saúde, em seus aspectos físicos e psíquicos, se tem uma experiência de integração corpórea. Ninguém sente a orelha esquerda, salvo os que estão encucados com sua forma e tamanho ou feridos. Nem mesmo as pessoas que usam brincos sentem suas orelhas. Isso porque, me parece, na saúde não existe “eu e meu corpo”, mas uma unidade psicossomática indivisível. Disse tudo isso para demonstrar que a minha aumentada percepção dos dentes era sinal de algo fora do comum. E a música do Moska é fora do comum.

Fiquei ali ouvindo, vendo, sentindo aquele caleidoscópio de emoções. E os dentes cada vez mais sensíveis. Entre uma canção e outra eu pensava: “- Nossa! Tenho dentes”. Sim. Tenho dentes afiados numa boca de jacaré mastigador de humanos (viva Santiago Nazarian!). Assim estava eu, um jacaré na beira do brejo de boca aberta engolindo, deglutindo, separando a poesia dos ossos, mastigando Moska. Opa! Parou! Comendo mosca? É até verdade. Eu estava tão bobo, tão entregue à música que mosquei, nem percebi que o show acabou. Permaneci parado vendo sem ver as pessoas saírem. Um jacaré na beira do brejo, de boca aberta, esperando que algum passarinho pousasse para comer as migalhas que sempre ficam entre os dentes. Que noite!

O Moska tem uma delicadeza bruta para falar de amor. Para dizer que amar é bom, mas é sempre solitário. Drummond já dizia que amamos o amor e não objeto de amor. Eles sabem das coisas. E sabem como ninguém, cada um a sua maneira, nos tocar. No caso do Moska, ele faz uma música com textura, com temperatura, com elementos que não podem ser escutados, mas sentidos. Música para pele. Sem dúvida ele é um dermatomusicísta. E como os dentes são ossos e ossos são feitos de tecido conjuntivo, um tecido mole, acho que eles estavam aplaudindo ao latejar. É o jeito sem jeito que eles têm de agradecer.

Saí do show. Comprei uma cerveja e virei de uma só vez. Vim caminhando para casa sozinho apesar das companhias queridas. Os dentes estavam latejando, minha oralidade precisava ser exercitada, mas essa noite não com beijos. Quero comer o mundo, cuspir minhas palavras. Agora estou aqui escrevendo e o problema é terminar este texto. Não sei como. O show ainda não acabou em mim. Minha meus dentes ainda pedem atenção. Farei o seguinte: deixarei assim, inacabado, ou melhor, em aberto. Quem quiser escrever comigo fique a vontade. Sensibilidade é o tema.

Ps: Obrigado mãe por ver aquilo que meus olhos não enxergam. 

Estrangeiro

Voltei de uma pequena temporada em Montreal no Canadá. Foi minha segunda vez, mas a primeira que fiquei sozinho lá.
A neve combina com a solidão. Um sorvete de solidão. Delícia. Estar junto é muito bom, mas estar junto de si também tem seus prazeres.
Maravilhoso estar em terras estrangeiras e na verdade ser o estrangeiro. Não dominar a língua, entender só em parte o que é dito. Uma experiência de desracionalização. Usar a intuição para comunicar, seguir pistas do discurso, errar. Adoro mal-entendidos. Não que eles não existam quando se fala a língua materna. Como dizem os psicanalistas e os poetas, a comunicação é impossível. Mas lá eles eram mais freqüentes e divertidos.
O bom de falar mal a língua alheia é que a gente só diz o é preciso dizer e só entende o que é vital. A língua ganha uma dimensão mais introspectiva. Dimensão que para mim é própria da linguagem. Dizer é antes dizer para si. Esquecemos disso e aí vivemos tentando convencer os outros. Ciência, política, argumentação, marketing. “– Fale! Seja prolixo! Diga o que você pensa. Mas não sinta. Não brinque com as palavras, elas são perigosas! Brigue com as palavras!” é o que nos ordenam.
Que se dane! Que se foda! Gostoso é confundir. Gostoso é duvidar. Não duvidar do outro como na paranóia contemporânea em que todos são culpados, perigosos até que se prove o contrário. Mas duvidar de si mesmo. “– será que entendi?”.
Num mundo de certezas a dúvida virou fraqueza. “– como assim você não sabe o que vai fazer?” Porém, pobre de quem não duvida, de quem não brinca, de quem entende tudo. Entender mal pode nos levar a descobrir mundos inteiramente novos.
Isto não é um elogio à ignorância, mas um convite ao sentir, ao dizer com os olhos ou simplesmente não dizer.
O engano é uma qualidade para poucos. A certeza é vulgar.

Je t’adore. Shut the door. Chute com dó

A mini-saia

Resolvi voltar a escrever aqui no blog. Conto com a compreensão de todos, afinal não sou escritor e nem jornalista. Escrever não é o meu ofício, mas é o meu hiato.
Sentei aqui para escrever alguma coisa interessante, entretanto devo confessar que está difícil. Não sei o que é exatamente, mas acho que tem a ver com a minha janela. Ela fica do meu lado direito e ganhou essa semana uma cortina nova.
O problema é que estava acostumado a vê-la de longo.Uma cortina longa que ia até o chão. Isso sempre deu a ela um ar solene, respeitoso. Cortinas longas que tapavam o sol, a paisagem e deixavam um clima de mistério, de flerte no ar. Tudo bem que a cortina estava bem velha, mas aquele velho vestido a fazia parecer mais madura, vivida, uma senhora que mesmo trajada com trapos mostrava sua elevada estirpe.
Talvez tenha cansado da vida que levava, uma mulher do lar, sempre ali parada olhando o movimento da rua. Não sei o que se passa na cabeça de uma janela com mais de cinqüenta. Mas sei que ela resolveu aparecer de mini-saia. Tá moderna. Fashion seria a palavra? Está com um ar de liberada. Sabe mulheres divorciadas que resolvem dar uma chance a si mesmas e serem felizes? “Viver a vida” é o que costumam dizer. Pois é. Olho para a janela e vejo isso. Mas de quem, do quê ela se divorciou?
Agora fica aí mostrando as pernas. Não sou conservador, longe de mim! Mas alguém deveria alertá-la que nessa idade e com as paredes que tem, não fica bem de mini-saia. Não quero parecer careta, mas é verdade. As rachaduras na pintura da parede são varizes provocadas pelo longo tempo que ela ficou de pé, parada vendo a vida alheia. Definitivamente ela não fica bem de mini-saia.
Estou constrangido. Tinha o projeto de pintar o apartamento, mas estou receoso. Vai que ela resolve pintar os cabelos com cores berrantes, usar maquiagem carregada, por um pircing ou uma tatuagem? Sou naturista. Gosto de paredes nuas. Certas modernidades me incomodam ou será que é a felicidade dela é que me incomoda? Vai ver que é isso. Vai ver que eu estou precisando voltar para a análise.

Lembrei do sambinha que diz: “tire o seu sorrido da minha frente que eu quero passar com a minha dor”.

O sonho do hexa acabou!

E lá se foi a esperança de mais um campeonato mundial para o país que Nelson Rodrigues chamava de A Pátria de Chuteiras.

Com a eliminação da Seleção, sobra a Eleição. Esta também uma caixinha de supresas, será?

Mas este é um outro assunto que abordaremos em momento oportuno. Gostaria de neste texto analisar a questão do sonho perdido.

Que sonho acabou? O do hexa? Ou o sonho de Brasil potência?

O bando desorientado que insistimos em chamar de time durante o período da Copa é o retrato do nosso país atualmente.

A Seleção foi um aglomerado de milionários, um monte, um grupelho de ex-pobres, de ex-brasileiros. A apatia, a falta de fibra e de amor pela camisa canarinho eram esperadas. E não podia ser diferente, podia?

Exigir deles amor ao país? Mas que país? Um país que só lhes deu pobreza, pais desempregados, mães exploradas como empregadas domésticas e barracos em bairros violentos para chamarem de lar?

Pedir a essa seleção de exilados, sim, pois, os nossos jogadores (não esses famosos) saem do país com 16 anos, às vezes menos, em busca de condições melhores de vida, da riqueza que promete dar respeito, beleza e acima de tudo cidadania. Mas dizia eu, pedir aos exilados amor à camisa, à pátria é pedir o impossível. Eles não são brasileiros e nem poderiam ser.

Esses homens que na infância eram zés ninguém, filhos de outros ninguéns da silva, viram alguém quando foram ganhar em euro. As loiras, morenas e negras só viram beleza neles quando já estavam ricos. Eles aprenderam que o dinheiro compra tudo. Dinheiro é igual a respeito. Os estrangeiros da seleção aprenderam que quanto mais ricos forem, mais respeitados e amados serão.

Nossos jogadores são jogadores sem pátria, mas com patrão. O amor pela camisa é pela camisa que paga mais.

E eles não são diferentes de nós. Pelo menos não da maioria de nós. Quantos de nós recusaria um punhado de milhões, passaporte vermelho e a oportunidade de viver em um país "civilizado"? (No caso da Espanha, tão civilizado que sofre atentado terrorista no metrô, vive há décadas em guerra civil e ainda acha bonito ter monarquia)

Não à toa o já citado Nelson nos chamava de Pátria de Chuteiras. Sim, pois, nosso sentimento de nação ganha tônus nos jogos da Seleção. Pois é o único “órgão” que nos dá algo, nem que seja esperança. Por isso a revolta da torcida é tamanha. Somos capazes de invadir a CBF, pedir a cabeça do Parreira numa bandeja com maçã na boca e tudo. Mas condenamos os Sem-Terra quando invadem as terras supostamente alheias. E não vamos às ruas nos unir aos professores que pedem aumento e melhores condições de trabalho. Não nos revoltamos e pedimos a cabeça do presidente da Volks ao anunciar sem mal-estar algum a demissão de milhares de trabalhadores e trabalhadoras.

E a classe média? Essa quer seu quinhão de united states, o carro seminovo na garagem, o plano de saúde, o emprego ainda com carteira assinada e quando possível uma viagenzinha para o exterior porque ninguém é de ferro. E estão errados?

E os ricos? Os ricos do capital transnacional, do investimento onde as leis trabalhistas forem mais frouxas, do jogo outro das bolsas e da corrupção.

É o país do cada um por si, do farinha pouca meu pirão primeiro, do o mundo é dos espertos.

Não temos projeto coletivo. Ora bolas, o sonho que acabou não foi o do hexa, mas o do Brasil nação. E longe de mim defender qualquer coisa parecida ao tal “projeto” da ditadura.

Mas é inegável que não temos projeto. Não aspiramos ser nada como nação. O Brasil não quer ser potência, mas deseja ser classe média entre os países. Embarcamos na conversa inglesa da economia política liberal. Um papo brabo, que promete que todos serão felizes se cada um se especializar numa coisa. Assim, somos o principal produtor de laranja do mundo, enquanto os países ricos são produtores de computadores, satélites, etc.

A Seleção é o retrato do Brasil. Apático, sem rumo, um grupelho de ricos que lamentam o sonho perdido.

Assim como o time, somos uma nação de mansos, de conformados. Um país sem rebeldia, sem ideais. Na república das bananas, Carmen Miranda é símbolo nacional, Che Guevara estampa de camisa de grife e Carlos Prestes… Carlos quem?

Que sonho acabou? Ou quais sonhos acabaram?

O do hexa se renova a cada quatro anos e o de Brasil justo também?

Quem avisa, amigo é!

I Congresso Internacional Spinoza & Nietzsche
Aproximações (texto escrito pela organização do evento)

O que aproxima filósofos de estilos tão diferentes como Spinoza e Nietzsche, distantes no tempo por quase dois séculos?

Tanto Spinoza (Amsterdã, 1632 - Haia, 1677), quanto Nietzsche (Röcken, 1844 - Weimar, 1900), foram tidos ao longo da história da filosofia como malditos, pois filosofaram contra seu tempo, a favor de um tempo por vir, propondo filosofias da imanência e de valorização da diferença, o que faz deles certamente os dois principais pensadores para a compreensão de nossa contemporaneidade.

O próprio Nietzsche listou seis pontos de proximidade entre sua filosofia e a de Spinoza: fazer do conhecimento o mais potente dos afetos; negar o livre-arbítrio; negar a teleologia e as causas finais; negar a ordem moral do mundo; negar o mal.

Cada um destes itens nos instiga, enquanto estudiosos da filosofia, pois constituem a base de um pensamento ousado, que se opõe à tradição filosófica da forma mais radical. Suas propostas se mostram extremamente atuais, e de vanguarda mesmo nos dias de hoje, o que motiva a realização deste Congresso, a fim de cotejar as idéias destes dois pensadores maiores de nossa história.

Será um encontro francofônico e contará com tradução simultânea. Reunirá especialistas estrangeiros e brasileiros para o estudo e análise das filosofias de Spinoza e Nietzsche, de modo a evidenciar suas proximidades mas também suas eventuais divergências.

Promoção:

Grupo de Pesquisa Spinoza & Nietzsche (SpiN).
Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF)

Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS)
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Apoio: UFRJ, CAPES, Consulado da França, Banco do Brasil.

O evento acontecerá nos dias 5 e 7 de junho de 2006 no Teatro da Maison de France (Rua Pres. Antônio Carlos, 58).

No dia 6, haverá apresentação de comunicações no IFCS/UFRJ, na sala Celso Lemos (apenas 70 lugares).
Conferencistas confirmados:

André Martins (UFRJ)
Chantal Jaquet (Paris I, Sorbonne)
Filippo Mignini (Università di Maccerata)
Homero Santiago (USP)
Maria Cristina Franco Ferraz (UFF)
Marilena Chaui (USP)
Mauricio Rocha (UERJ)
Oswaldo Giacoia Jr. (Unicamp)
Patrick Wotling (Reims e Paris IV, Sorbonne Nouvelle)
Viviane Mosé (UFRJ)

Inscrições antecipadas e informações pelo e-mail

spinoza.nietzsche@yahoo.com.br
As inscrições somente serão aceitas após o recebimento dos dados de inscrição (nome, e-mail, telefone, endereço residencial, instituição se for o caso) e da cópia do comprovante de depósito bancário que deverá ser enviada escaneada para o e-mail acima ou para:

Prof. Dr. André Martins
I Congresso Internacional Spinoza & Nietzsche
Departamento de Filosofia
Largo de São Francisco, 1 / sala 309.
20051-070  -  Rio de Janeiro - RJ

A conta para depósito será indicada por e-mail.

Valor das inscrições
Até 20 de maio para realizar depósito e enviar comprovante e dados de inscrição:

Graduandos - R$ 30,00
Pós-Graduandos - R$ 45,00
Professores - R$ 60,00
Público em geral - R$ 80,00

Até o dia do evento para realizar depósito e enviar comprovante e ficha de inscrição, ou no local (dentro do limite de vagas):

Graduandos - R$ 45,00
Pós-Graduandos - R$ 60,00
Professores - R$ 80,00
Público em geral - R$ 80,00

 
I° CONGRESSO INTERNACIONAL SPINOZA & NIETZSCHE
Ier Congrès International Spinoza & Nietzsche
PROGRAMAÇÃO
5/6/2006, 2ª feira, Teatro da Maison de France
08h30min – Credenciamento e entrega de material (permanece ao longo do dia)
09h45min – Mesa de Conferências 1:
Prof. Dr. Maurício Rocha (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ, Brasil)
Profa. Dra. Maria Cristina Franco Ferraz (Universidade Federal Fluminense, UFF, Brasil)
Debate coordenado por Marcello Picchi (SpiN/UFRJ)
11h45min – Almoço
13h – Mesa de Conferências 2:
Prof. Dr. André Martins (Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Brasil)
Profa. Dra. Chantal Jaquet (Université de Paris I, Sorbonne, França)
Prof. Dr. Patrick Wotling (Université de Reims e Université de Paris IV – Nouvelle Sorbonne, França)
Debate coordenado por Jorge Moraes (SpiN/UFRJ)
16:30h – Coquetel de Abertura
6/6/2006, 3ª feira, sala Celso Lemos, IFCS
9h – Comunicações
Mesa coordenada por Renato Nunes Bittencourt (SpiN/ PPGF/UFRJ)
10h20min – Intervalo
10h30min – Comunicações
Mesa coordenada por Hugusnardo de Carvalho (SpiN/UFRJ)
11h50min – Almoço
14h – Comunicações
Mesa coordenada por Luis Guilherme Barbosa (SpiN/UFRJ)
15h20min – Intervalo
15h30min – Comunicações
Mesa coordenada por Drayfine Teixeira (SpiN/UFRJ)
16h50min – Intervalo
17h – Comunicações
Mesa coordenada por Gabriel Cid (SpiN/UFRJ)
18h30min – Intervalo
18h40min – Comunicações
Mesa coordenada por Nastassja Pugliese (SpiN/UFRJ)
7/6/2006, 4ª feira, Teatro da Maison de France
10h – Comunicações
Alex Leite (UESB-BA)
Renato Bittencourt (UFRJ)
Nastassja Pugliese (UFRJ)
Debate coordenado por Gabriela Braga (SpiN/UFRJ)
11h10min – intervalo
11:20h - Comunicações
Bernardo Carvalho Oliveira (PUC-RJ)
Antônio Augusto M. de Pinho (PUC-RJ)
Jorge Moraes (UFRJ)
Debate coordenado por Luís Otávio Mantovaneli (SpiN/UFRJ)
12h30min – Almoço
14h – Mesa de Conferências 3:
Profa. Dra. Anna Hartmann (Universidade do Rio de Janeiro, UniRio, Brasil)
Prof. Dr. Homero Santiago (Universidade de São Paulo, Brasil)
Debate coordenado por Carlos Canano (UFRJ)
16h15min – Pause Café 
16h30min – Mesa de Conferências 4:
Profa. Dra. Viviane Mosé (Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Brasil)
Prof. Dr. Filippo Mignini (Univesità di Maceratta, Itália)
Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Jr (Universidade de Campinas, Unicamp, Brasil)
Profa. Dra. Marilena Chauí (Universidade de São Paulo, USP, Brasil)
Debate coordenado pelo Prof. Dr. André Martins (UFRJ)

21:10h – Coquetel de Encerramento

O sonho acabou

Hoje, Garotinho anunciou o fim de sua greve de fome.

Mas que falta de perseverança do ex-atual-governador, não acham?

Porém, uma greve ridícula, como classificou Frei Betto, não poderia ter um fim menos ridículo. Afinal, a opinião pública cansou do tema e a piada perdeu a graça.

Outro aspecto absurdo dessa greve, foi a ida de Garotinho para o hospital. Ele foi em uma ambulância do Corpo de Bombeiros. Engraçado! Se eu, cidadão comum, ligar para os Bombeiros pedindo uma ambulância para alguém que está tendo um infarto dentro de casa, a resposta será: - ligue para o SAMU (Seviço de Remoção Móvel, 192), porque os Bombeiros só fazem remoção na rua.Só na rua, é? E na sede do PMDB no centro do Rio?

E mais, os Bombeiros devem levar o paciente para o hospital público de referência. E não para o Quinta D’Or, como aconteceu com o marido da Rosinha, que lá está a base de sucos e papinhas.

Rídiculo de ponta a ponta o episódio da greve de fome. Nem novela mexicana é mais cretina.

O pior é que no meio desse bafafá ninguém irá perguntar pelo procedimento adotado pelo Corpo de Bombeiros.

A sensação que dá é que Garotinho e Rosinha aproveitarão a estada no Quinta D’Or para fazer um piquenique na Quinta da Boavista ou visitar o Zoo. Ah! que falta faz o saudoso macaco Tião. Esse, sim, era um cidadão carioca com vergonha na cara. Tenho certeza que não deixaria essa barato.

Para completar, a (in)Justiça deu direito de resposta à Garotinho pela matéria publicada na Veja (eca!) e reproduzida no jornal O Globo.

Dessa forma, ainda teremos que ouvir falar desse assunto por algum tempo.

Sade diz que amar o belo é fácil, difícil é a fealdade. Concordo. O pitoresco tem lá seus encantos. Mas Garotinho é uma bizarrisse indigesta (sem trocadilhos).

Por essa e por outra é que digo: Em terra de banguela, quem come papinha é rei.

Luiz

agradecimento especial a macaco Tião (in memoriam)

Indicação

Caros,

Estou sem tempo para escrever, mas no fim de semana este blog terá coisas novas.

Enquanto isso, indico a Revista Caros Amigos deste mês que tráz uma super entrevista com Ciro Gomes. O cara é nitroglicerina pura. Além de uma papo com Marcelo Yuca e sua banda.

Vale a pena dar uma olhadinha na revista. Quem quiser ter uma prévia, pode visitar o site  http://carosamigos.terra.com.br/

Luiz

A ética do gozar a qualquer preço

          

              Estou relendo dois livros importantes para mim, são eles: “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, de Freud e “Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade.

            Estes textos clássicos, uns debates no mestrado e um punhado de frases de bar me levaram a refletir sobre a questão da perversão na atualidade.
            Para o leitor não-iniciado, devo rapidamente explicar que perversão em psicanálise tem um sentido diferente do senso comum. Trata-se de uma das três estruturas clínicas, que são: neurose, psicose e perversão. Em tese, esta divisão não implica um julgamento de valor.
            Entretanto, passemos ao desenvolvimento da questão. Ao longo do texto o leitor encontrará as formulações que por ventura lhe faltem em relação ao tema.
            Durante muito tempo a questão da perversão esteve ligada, ou melhor, colada ao campo da sexualidade. Eram as práticas sexuais que definiam o perverso. Homossexualismo, zoofilia, pedofilia e necrofilia são exemplos de práticas consideradas, em alguns casos ainda hoje, como perversas.
            Contemporaneamente, o conceito de perversão foi “atualizado” e transbordou para o campo do social. Dessa maneira, temos como uma das possíveis definições de perversão a seguinte formulação: perverso é aquele que se coloca no lugar da lei, que goza ao burlar-la e, que principalmente, trata o outro como objeto e não como sujeito. É perverso também quem se deixa ser posto no lugar de objeto, quem se destitui de sua vontade e de seu direito de escolha.
            É exatamente essa nova formulação, sobre tudo a segunda parte, que me interessa.
            Pensemos no sadomasoquismo. Segundo a formulação clássica, trata-se de perversão. Mas será?
  No jogo sadomasoquista as coisas tem dia, hora e lugar para começar e acabar. E tem regras também. Há códigos, senhas, para que o jogo acabe.
            Imaginem a seguinte cena: um homem amarrado nos pés e mãos de forma a ficar na posição de estrela, vestido de couro e com as vias respiratórias tapadas, exceto a boca, onde se encontra um canudo. Um homem imóvel e indefeso. Sua parceira ou parceiro, igualmente vestida de couro, porém, livre para tapar o canudo, única via de ar para o primeiro personagem. E aí está posto o jogo. Passar horas a fio tapando e destapando o canudinho.
            Neste exemplo, o que temos é sim a entrega total de um indivíduo a outro. O que segundo a formulação que apresentei é perversão. Entretanto, há um acordo, um pacto, uma ética a ser seguida. Essa prática sexual se dá com a concordância dos participantes. E mesmo quem está no lugar de objeto tem voz. Pois quando a senha para acabar é deflagrada, o jogo acaba.
            Na perversão que vemos no campo do social não é assim. Não se trata de uma prática, mas de um modo de existir no mundo e não tem senha para acabar.
             Por exemplo, o fanatismo de toda ordem. Como ser dono da própria vida e ser responsável por ela dá trabalho e traz sofrimento (neurose), a saída perversa é despir-se da capa de sujeito. Entregar-se ao outro, mas sem pacto, sem momento específico.
            Mas há também o perverso que tripudia da lei, que toma o outro como objeto de seu gozo sem dar escolha a este outro. Como exemplo temos boa parte dos políticos. Frases como, “isso não prova nada”, ou a célebre frase do Maluf, “a assinatura é minha, mas não fui eu quem assinou”. Essa é a perversão de fazer a população e a coisa pública de objeto.
            A perversão no campo do social pode ser encontrada em múltiplas formas. Há o perverso que se entrega às ordens do mercado pela via do consumo, o que se entrega às ordens do líder religioso pela fé (e às vezes por consumo também) e o perverso que faz do outro seu objeto.
            Há autores, como Charles Melman, que sustentam a tese de que vivemos em uma sociedade perversa.
            Isto nos coloca uma outra questão, a do sofrimento psíquico. Hoje, o que se vê na clínica não é mais a dor da castração, do limite, da finitude. Ao contrário, quando dói, o sofrimento é pela falta de limite. E isto aparece sob a forma de um mal-estar difuso, sem queixa, só mal-estar.
            Suspeito que a questão seja a seguinte: se tudo posso, o que faço? É O que Melman chama de o homem sem gravidade, um humano flutuante que pode tudo, mas que também está sujeito a tudo. Afinal, se eu faço o que quero, o outro também faz. E isso geralmente não dá certo.
            O que está em jogo é o limite. E mesmo esse não-limite aponta para uma borda. Porque se eu posso tudo, eu não posso nada. Se sou tudo, não sou nada. E o sintoma desse limite é o mal-estar.
            Entretanto, um dos analgésicos para mal-estar é o consumo. Vá ao shopping e seja alguém. Compre um celular, uma calça e uma subjetividade. É o que Suely Rolnick chama de subjetividades prêt-à-porter.
            Consome-se tudo. De produtos a ideologias e de práticas religiosas a sexuais. Vale tudo para ser alguém, mesmo que por breves instantes. Troca-se tudo. Troca-se de sexo, de cabelo, de cor, de nacionalidade.Troca-se de tudo, menos de time de futebol.Como diz o prof. Benilton Bezerra, o time de futebol é o último reduto da imutabilidade em nossa cultura.
            Vivemos a ética do gozar a qualquer preço. Essa sim uma ética perversa. E por ser perversa, não é para todos. A maioria de nós fica só na tentativa de não sofrer. Na perversão pequena do entregar-se para não sentir a dor de ser sujeito. E esse é um gozo minúsculo.
            Dito isto, não deveríamos pensar no sadomasoquismo como perversão, mas como transgressão. Algo que transgride uma suposta norma biológica para criar algo novo. E essa é uma diferença importante.
            A transgressão é sempre propositiva, criativa, afirmativa da singularidade e do devir de cada um ou de cada grupo.
            Os praticantes do sadomasoquismo fazem o mesmo que os artistas, sobre tudo os poetas que transgridem as regras lingüísticas para expressar e propor uma nova estética e, conseqüentemente, uma nova ética.O sadomasoquista ao transgredir, amplia as formas possíveis de amar. Propõe uma nova gramática do amor.
         O perverso não propõe nada. Não cria nada. Simplesmente goza ao burlar a lei. Ele não quer uma nova lei, mais ampla, mais justa, mais bonita. Ele quer a mesma lei. Ele precisa dela para gozar, pois só tripudiando dela é que seu deboche encontra satisfação.
            Ando pensando essas coisas porque me parece que vivemos um clima de perversão legitimada. O que já é uma contradição em tese, mas não na imanência da vida. Acredito que debater as questões sociais à luz da psicanálise pode enriquecer o debate e proporcionar novos laços com outras disciplinas, principalmente com a História, o Direito, a Economia, Medicina, Sociologia, Antropologia e Política.
            O que vocês pensam sobre o assunto?

Solidariedade é tudo na vida

O brasileiro é conhecido como um povo pacífico, amistoso e solidário. Sendo assim, não poderia ficar indiferente ao protesto de um de seus maiores líderes políticos e espirituais.

Hoje pela manhã recebi este licor enviado por meu amigo George.

Garotinho, o povo brasileiro está com você até o fim. Afinal, solidariedade é tudo na vida.

Luiz

Merci: A George por este achado internético.

link: www.kibeloco.com.br 

Beleza Undergound

     No mesmo dia em que a atriz Juliana Paes apareceu entre as mais belas do mundo na lista da revista Time, meu querido amigo Alessandro me brindou com mais um de seus licores: a musa underground  Neisa Pantera, a rainha das coroas.

     E atenção, caro leitor, para a sofisticação do que lhe apresento. Não é Neusa, tampouco Neide, mas Neisa, para marcar como uma chaga a oposição à industria de cultura de massa.

    Com versos ágeis e sensuais como, “Sou gostosa e saborosa, docinho igual o mel/ Todo mundo que me chupa, se sente lá no céu/ Me colocam na boca, me chupam e me mordem/ Meu doce é uma delícia e meu suco é tão forte”, do seu hit “Jabuticaba”, Neisa evoca uma sensualidade esquecida e desprezada pelas estrelas novelísticas que abusam do pornô, do explícito e de nossa paciência.
            Falando sempre das e para as mulheres que passaram dos quarenta, esta cantora do interior paulista trata de temas contemporâneos e polêmicos como a ditadura da beleza. Na canção “Saradona”, temos um exemplo do cotidiano da mulher moderna: “A mulher de quarenta/ Faz e acontece/ Quase se arrebenta/ Mas na hora na balada/ É ela que esquenta/
Pra manter a silhueta/ Corre, malha, nada borboleta/ Ela não aceita falha/ Ela dá suas piruetas”.
          Ou ainda o tema do preconceito, abordado sem meias-palavras na música de protesto “Pitbull”: “Dizem por aí que nós somos pitbulls/ Na verdade somos um grande tabu/ A coroa é maltratada e nunca teve seu espaço/ Só porque ela é coroa é chamada de bagaço/ Tenho que entender/ ‘Tou’ cansada de chorar/ Só porque tenho 40/ Ele já quer me deixar”.
      Neisa Pantera é um chute nos peitos (para não dizer no saco) da mulher pintada pelo GNT. Uma mulher contemporaneamente artificial, com beleza industrial, sexualidade disfarçada de liberada e inteligência de manual, como resume bem o programa Saia Justa.
      A fera ferida de Botucatu quebra a marretadas e com muito bom humor o ideal asséptico, clean e sem sal de mulher. Nos mostra aquilo que queremos esquecer, que a mulher (mas o homem também) tem pentelho, ruga, cabelos brancos. Ou seja, que perecemos, que somos finitos.

    Mas a artista também nos chama a atenção para o fato de que a felicidade é uma questão de ser com alegria o que se é, como no hino-de-exaltação “Rock da Coroa”: “Sou coroa assumida/ Tenho um gatinho na fita/ Gosto de viver a vida/ Sou feliz, sou bonita.”

     No campo da Filosofia, eu diria que Neisa é uma espinosista. Pois aceita ativamente o real como ele é em todos os seus aspectos, bom e mau, bonito e feio, certo e errado.
      A Pantera entendeu o sentido de perfeição em Espinosa. O mundo é perfeito porque não lhe falta nada, ele é o que é. Não existe um outro mundo melhor, inteligível. Mas podemos melhorar a nossa experiência neste único mundo que há.
      Como não há uma outra beleza senão a beleza que há. Perfeita nas suas rugas, gorduras e pêlos. E a felicidade possível está em aceitar ativamente o real como ele é.
     Passar a vida procurando o mundo inteligível platônico, que não existe e a igualmente ficcional beleza gnt, é viver um sofrimento desnecessário. É correr, como um cão que procura o próprio rabo, atrás de ilusões, de coisas imperfeitas porque nunca existem.
      Por essa e por outras é que digo: Caetano que nada. Viva Juca Chaves!!
 
Agradecimentos: A Alessandro que me apresentou essa pérola. E a Luciana que me ensinou a baixar o ringtom de “Jabuticaba”.
 
Links: site de Neisa Pantera: http://www.neisapantera.com/

            Site da Vivo para baixar o ringtom: http://www.tonsmusicais.com.br/portalvivo/inicial.aspx?regiao=RJES

Contra o monopólio pequeno-burguês da pipoca

Hoje (29/04/2006), fui apresentar a cidade maravilhosa a meu amigo Arnaldo. Um venezuelano gente boa que tinha um dia para conhecer o Rio.
Fizemos os clássico e como tínhamos tempo, resolvemos dar uma volta no centro. Lapa, Cinelândia, Catedral de São Sebastião.
Meu amigo ficou impressionado com a arquitetura moderna, com os vitrais e com o Cristo que parece flutuar. Tudo perfeito.
Na saída, resolvi comprar uma pipoquinha para enganar a fome. Ao me aproximar de um tipo cabisbaixo e grisalho, perguntei:

- Quanto é o saco de pipoca?
- Três reais! Disse o velho, não mais cabisbaixo.
- O quê?! Retruquei.
- Três reais o saco e a p#@%$

A última frase foi fruto de uma ilusão que durou uma fração de segundo. Mas que só vim compreender agora.
Três reais por um saco de pipoca é uma pornografia, uma imoralidade capaz de vexar a mais ordinária das “meninas” de madame Teresa da VM. O velho deveria ser preso por atentado violento ao pudor.

Entretanto, naquele momento, mesmo ofendido, aprendi uma lição: o que é um monopólio. Crianças, atenção! Monopólio é sentir fome depois de bater perna o dia todo, pedir uma pipoca, escutar uma resposta indecente, olhar ao redor e não ter NUNHUMA opção.
O velhinho é dono de um monopólio dentro da casa do Nazareno e seu Pai. O coitado morreu na cruz e nós ainda temos que morrer nos três reais.
Esse pipoqueiro burguês é a classe que nos oprime, nos ofende e inunda o mundo com o cheiro desagradável da mistura de gás e óleo de coco.
Por esta e por outras conclamo: Comedores de pipocas do mundo, uni-vos!!

Pós-pensamento: será que o pipoqueiro está mancomunado com a cúpula da igreja para embutir no preço da pipoca o valor do ingresso supostamente gratuito?

1° de maio

Hoje, dia do trabalho, homenageamos os trabalhadores mortos em Chicago durante os protestos pela redução da jornada de trabalho no século XIX.

            A luta destes homens e mulheres, não apenas da cidade americana, mas de todo o mundo, contribuiu para que os trabalhadores de cada país pudessem assegurar direitos mínimos e condições um pouco mais dignas de trabalho.

             Entretanto, a história se reedita e novamente os trabalhadores são convocados a lutar pelos seus direitos. Luta esta, que pela perversão do chamado mercado de trabalho, se concentra não mais na melhoria das condições de trabalho, mas na manutenção a qualquer custo dos empregos ou postos de trabalho.

            O medo do desemprego é maior do que as aspirações por salários mais justos e ampliação dos direitos. Estamos com diz Frei Beto, lutando não por direitos humanos, pois estes são uma sofisticação da vida, mas por direitos de bichos. Afinal, comer, se abrigar do frio e manter a prole, ou seja, sobreviver, é direito inerente a qualquer ser vivo. Estamos tão atrasados que nossa agenda é biológica e não social.

             Voltamos aos primórdios da organização social humana. Inventamos uma entidade metafísica, O Mercado, que de acordo com o seu humor devasta ou faz vingar nossas plantações. E para mantermos este deus/demônio calmo, oferecemos uma virgem em sacrifício, os direitos.

            Hoje, devemos lembrar do genocídio de Chicago, mas também da morte e vida severina das crianças que perdem a infância e os dedos no corte do sisal e na quebra de pedras no Nordeste. Das meninas que se tornam mulheres aos oito anos, não por prazer, mas por necessidade. Lembremos dos ambulantes obrigados a correr da polícia. Da vergonhosa fila quilométrica para virar gari no Rio de Janeiro. Vergonhosa não pela profissão, mas pelo o que a fila representa. Lembremos do sono mal dormido e dos cochilos no ônibus, metrô e trem. Do medo de tirar férias.

            O primeiro de maio é esta data em que tiramos alguns momentos do dia para sentir um pouquinho (não muito) da dor ancestral de ser trabalhador. Um dia para dizer: - Eu me lembro! E não me acostumo!

            E não se acostumar é o fundamento da mudança, das pequenas mudanças, das micro-revoluções, da transformação possível. Afinal, maio é o mês do movimento de 68 na França, do nosso terrível maio de 64, dos trabalhadores do mundo e, também, das noivas.

            Assim, este é um mês de luta e de amor. Da esperança em dias melhores e do amor entre as pessoas.

            Feliz 1° de maio de todas as esperanças.

Luiz 

Cartoon Network presents

 

 

 

 

 

 

 

 

Pink e Cérebro. No que será que eles estão pensando agora?

Pirraça Eleitoral

Vejam a nova do Garotinho. Insatisfeito com as denúncias de irregularidades na captação de recursos para sua pré-candidatura à presidência, o ex e atual governador Anthony Garotinho declarou estar em greve de fome a partir de hoje.

            Realmente é de tirar a fome ver que por coincidência os empresários que doaram dinheiro à campanha dele, são diretores das ong’s que receberam cerca de 254 milhões de reais do Governo do Estado. Isso é que é cheque-cidadão!

            Por conta desse detalhe, o peemedebista resolveu jejuar. Seria um protesto ou uma dieta somada a estratégias de marketing?

           Imaginem o jantar na Terra do Nunca (residência do governador). A Rosinha dizendo: - Garotinho, se não comer tudo não tem sobremesa!

            Ah! Artaud, você tinha razão. O absurdo dá um colorido todo especial à vida.

            Garotinho, olha a pirraça eleitoral, heim? Toma jeito, menino!


Luiz

 

Fonte: globo on line. Acessado em 30 de abril de 2006. link da matéria http://oglobo.globo.com/online/pais/mat/2006/04/30/247012693.asp

Hiativando

Caros leitores,

 

       O Hiato é um espaço destinado ao livre fluxo do meu sentir, pensar e agir (não nessa ordem). Sem forma, sem tema, sem pretensão abordarei assuntos de reconhecida relevância e irrelevância.

 

O lugar do não-lugar é onde o sagrado e o profano se encontram sem pudores, sem julgamentos. onde o que importa não é o sentido, mas a expressão. Um lugar deleuziano, um lugar de corpos sem órgãos.

 

Hiato, mas poderia ser espaço potencial (Winnicott). Entre o aqui e o acolá, há a potencia, a possibilidade de ser criativo e inventar o mundo.

 

É o que farei. Inventarei o grande mundo. 

 

       Bem-vindos!

 

Luiz