O presente da fada
Ao chegar em casa, encontrou sobre a mesa da sala uma caixinha de presente com um laço verde. Não era seu aniversário, nem nenhuma outra data significativa. Abriu ressabiado a caixa e sorriu ao ver seu conteúdo: uma bomba de chocolate, seu doce favorito.
Coçou a testa pensativo. Quem haveria lhe deixado tal mimo? Seria a Fada dos Dentes de Leite? Talvez. Como toda criança saudável, perdera muitos dentes na infância, todos ofertados à Fada. Mas fadas não existem – pensou. Aquele papo de fada era uma enrolação que seu pai, um homem doente e sempre de pijama, inventara para lhe extrair os dentes moles. Como não tinha mais o que fazer, o velho homem se divertia servindo de boticário da família e dos vizinhos, mas seu passa-tempo predileto era amarrar uma linha de costura nos dentes-de-leite e arranca-los numa só puxada. A conversa da fada era só um argumento para convencer suas vítimas. A elas prometia que para cada dente extraído, a fada traria um doce.
Seria aquela bomba de chocolate a recompensa pela qual esperou toda vida? Aqui cabe uma pequena explicação. Apesar de prometer um doce para cada dente, seu pai sempre esquecia da promessa e, assim, a fada nunca entregou a prenda. Por baixo da pele de ateu, de cético, de cientista, havia um coração de menino que tinha certeza de que o doce era obra da Fada dos Dentes de Leite. Olhou novamente para o interior da caixa, mirou diretamente na bomba de chocolate e encheu os pulmões de ar. Enquanto os esvaziava num longo suspiro, se deixou levar por uma reflexão, quase um devaneio. Lembrou que na infância havia trocado de endereço muitas vezes, de escola chegou a perder as contas. A Fada poderia ter se perdido com aquele troca-troca todo. Na adolescência morou fora do país. Vai ver as Fadas dos Dentes de Leite são como DVDs, têm área, assim, um prêmio ganho no sul não poderia ser entregue no norte.
Corou-se ao se dar conta de seus pensamentos, sentiu-se pueril ao lembrar do pai e da infância. Nesse momento, se deu conta que somente alguém poderia ter deixado aquele doce ali. Alguém que o ama, alguém que é de carne e osso e, que apesar de parecer uma fada, não tem nada a ver com seres mágicos. Mas por que deixou aquele doce de presente? Por que naquela caixinha tão cerimoniosa e sem cartão? Foi então que nosso herói descobriu que o amor não tem razão e que aquele gesto de carinho não precisa de um porquê. Tudo aquilo se bastava em si.
Sentou em sua poltrona azul, pôs a caixinha no colo, levou o doce à boca e sentiu o açucarado sabor de ser amado sem razão.



